As coisas simplesmente acontecem

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274434_papel-de-parede-arvore-torta_1920x1200-1Era quarta-feira, por volta de 12:00 e recebo um telefonema de um ex-colega de trabalho (mas que éramos próximos quando lá eu trabalhava).

A ligação era inesperada, e quando atendi, não sabia como reagir. Então agi como se estivesse atendendo uma ligação normal.

A voz do outro lado da linha era triste, o que me fez ficar ansiosa sobre aquilo que estava prestes a ouvir – mas de um jeito ruim, eu não imaginava o quão ruim era o que iria escutar.

Foi quando me disse que uma pessoa que trabalhava para um cliente – desse escritório – se matou.

A questão toda é que essa pessoa era uma das que eu mais admirava em minha carreira profissional. O tato com que lidava em processos litigiosos, a humanidade que carregava em si e que externava com cada pessoa, seja parte adversária ou seu advogado.

Um tipo de pessoa fácil de admirar, se de inspirar. Mudou a minha forma de ver um litígio processual, pois não necessariamente as partes ali eram inimigas e deveriam se portar numa audiência como se fossem os piores rivais desse mundo. Ele simplesmente chegava, pegava na mão do oponente, fazia perguntas simples como alguém que realmente se importasse em como a pessoa tinha passado. Conhecia parentes de quase todos os empregados dessa empresa, e sempre lembrava de perguntar por aquele irmão com câncer, aquela mãe doente, ou o filho que estava mal. Era incrível.

Preciso ressaltar a grandiosidade dessa pessoa, pois na minha cabeça ela tocou e mudou a vida de muitos outros que com ele trabalhavam.

Estávamos sempre juntos nos processos trabalhistas: eu como a mandatária e ele como o preposto, já que era responsável pela empresa no Estado, sempre reportando a seus superiores e donos. Ele chegava nas audiências e dizia: “Dra., esse aí merece ganhar esse processo. Vou convencer a empresa a ajudar ele num acordo”, ou então o contrário como “Esse daí fez tanta sacanagem na empresa que ele não merece ganhar nada”. Viajávamos juntos para o interior a trabalho e nesse tempo juntos, conversávamos sobre várias coisas. Mais ele do que eu, pois tinha uma enorme necessidade de me reservar por uma questão profissional.

Mas ele não era assim. Contava sempre do sobrinho, que amava como se fosse o filho que ele nunca teve, já que pela idade avançada, nunca havia se casado ou sido pai. Contava da saudade que tinha da casa no interior, que deixou para trás para seguir a carreira profissional na capital. Falava de seu pai, do local calmo que era essa casa, e das éguas que criava por lá.

Ah, mas que paixão que falava desses animais. Através de seus olhos, eu entendi que cavalos são animais tão emotivos quanto cachorros, por exemplo. Contava que ele chegava na casa, chamava as éguas pelo nome e elas vinham cumprimentá-lo, e que isso o enchia de orgulho.

Essas e mais tantas outras histórias fascinantes que faziam dessa pessoa alguém muito querido por quem quer que fosse.

Nossos últimos contatos foram breves. Ele, atolado com o trabalho, levava sua rotina em viagens contínuas, sem fixar em qualquer lugar. Eu brincava, dizendo “Isso vai te matar, peça demissão logo e vai descansar na casa do seu pai”. E ele devolvia, dizendo que não via a hora de largar tudo e ir pra lá descansar um pouco a cabeça.

Daí, quando atendi aquela ligação e soube do que aconteceu, eu não conseguia entender.

Quem sabe porque eu já tive pensamentos soturnos e não tive coragem de dar continuidade, e pensar a que ponto de fraqueza e dor ele estava sentido para tomar uma decisão tão drástica. É difícil entender como uma pessoa, que parecia levar tudo na vida com muito amor, cercada de pessoas que estavam perto simplesmente por quererem estar – e não necessariamente porque precisavam dele. Ou ao menos era isso o que aparentava.

Passou pela minha cabeça tentar entender a agonia daquela pessoa, o desespero numa alma que talvez tenha até tentado de tudo, mas que entendeu, na sua grande capacidade humana – turva por frustrações, depressão ou seja lá o que for – que essa era a única solução para tudo o que passava em sua cabeça.

Quem sabe eu não consiga entender também por saber que onde alguns veem beleza, outros só veem um fardo e buscam a solução mais adequada. Não ouso dizer que é a solução mais fácil, tratando por covardia aquilo que, quem sabe, poderia ser a decisão mais sensata para aquela pessoa, que talvez não visse outra solução melhor do que aquela que a levou a sair de casa com o carro e uma corda no porta malas, parar em algum lugar ermo no meio da estrada, amarrar essa corda numa árvore, no pescoço, e se jogar para fora do apoio.

Talvez por deparar com mais um fato que demonstra o quanto somos pequenos, e que as coisas não acontecem por coincidência ou por destino.

Elas simplesmente acontecem.

Não adianta pedir por boas energias, acender velas, rezar mais ou fazer promessas. O universo continuará deixando que as coisas simplesmente aconteçam, e que muito provavelmente nem todas as ações de uns não se relacionam com as ações de outros, como naquele filme “Efeito Borboleta”.

Não é porque João das Couves acordou mais disposto que isso fará com que seu dia seja melhor. Ou porque Maria da Horta decidiu usar um atalho para chegar ao trabalho, ou mudar o corte de cabelo ou qualquer outra aleatoriedade que colocamos fé como se fosse algo promissor, retirando do ato a pequeneza que ele realmente tem.

Por mais que tentamos buscar respostas, elas não existem, porque as coisas simplesmente acontecem.Simplesmente assim.

Simplesmente como devem ser.

Porque elas irão acontecer mais cedo ou mais tarde, se tiverem de acontecer, e muitas vezes temos o poder de decidir isso, assim como outras tantas, não temos poder nenhum.

Então seria sensato se acovardar? Se acomodar e se empurrar, dia após dia?

Não. Pelo contrário.

Devemos é viver, exatamente como achamos que devemos fazê-lo. Porque no final talvez isso seja a única coisa que conte, quando tudo o mais estiver chacoalhado, de pernas pro ar. E não que devamos fazer isso como uma obrigação, por si só: o dever que temos, primeiramente, é conosco, com a nossa vontade e com os nossos desejos, nossos medos, nossos tormentos.

Não que será fácil, mas devemos a nós mesmos o direito de tentar.

E se falhar, cabe a cada um decidir o que for melhor.

O compromisso é com nós mesmos, pois não importa o que tiver de acontecer amanhã: acontecerá do mesmo jeito.

Então, porque não tirar o melhor disso tudo?

 

 

Descanse em paz, D.

Meu conforto é saber que se você chegou a esse ponto, deve ter encontrado o descanso que tanto procurava por aqui, o sossego para a sua alma.

 

O sonho lindo que se vai

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Depois de um dia difícil, cheguei em casa e consegui, depois de muito, dormir.

Sonhei que estava patinando em um parque, que tinha uma trilha longa cimentada que eu conseguia andar com muita velocidade. Coloquei os patins que tenho, patins esses que, fora dessa realidade paralela, comprei há mais de um ano e nunca os usei, pois achei que a encomenda que veio de fora acabou não servindo bem nos pés e isso me desmotivou de usá-los.

Eles estavam estranhamente confortáveis. São cinza e rosa claro, com rodas grandes que, no sonho, faziam com que eu deslizasse com mais facilidade e ganhasse mais velocidade.

Cheguei nesse parque, e a entrada era na parte baixa. Ele ficava numa clareira grande, havia grama onde estavam as pessoas, rodeado de árvores de todos os tipos. Com o patins calçado, subi pela grama até chegar a parte mais alta, o que levou muito menos tempo no sonho do que a descida.

E chegando no alto, havia uma pequena construção, com quatro pilastras e uma laje circular, pintados de branco, onde tinha um vento bem agradável. Lembro que não era tão alto vendo tudo dali de cima, mas a descida de patins durou tempo o suficiente para eu pensar que essa percepção poderia estar errada.

Ali comecei a descida, sem medo de cair – e até contando que isso fosse acontecer e eu me machucasse bastante, por ser algo normal naquela situação – passando pelas pessoas que estavam nessa trilha cimentada, passando em alguns caminhos com terra molhada de uma recém chuva – onde não tinha esse asfalto – passando por partes desse caminho que estavam esburacados, estando uma parte com tanto buraco que era preciso “andar”, a passos calmos, com os patins.

Não tem o menor sentido esse sonho.

Eu não ando de patins desde os meus 8 ou 9 anos, não tenho ideia se conseguiria andar uma quadra,sem treinar, acaso tentasse hoje.

Mas o fato é que a sensação que esse sonho trouxe me deixou tranquila, aliviada. É como se eu estivesse mesmo feito aquilo e estivesse satisfeita com o que aquilo me proporcionou.

Tenho me sentido desestabilizada com inseguranças que desenvolvi recentemente em vários pontos da minha vida. O sentimento é de que vou explodir a qualquer tempo, e sem conseguir entender o porquê, já que nem eu consigo explicar de onde está vindo tudo isso.

Pode ser crise de idade, eu não sei. Mas sei que tenho dificuldades para entender o que eu sinto para, assim, expressar o que eu quero. E todas essas coisas mencionadas superficialmente, de uma maneira muito proposital, têm me deixado angustiada, com um peso no peito.

Nessa noite tive dificuldade de dormir, mas nesse caso, em particular, porque ficava tentando organizar as minhas ideias e sem chegar em lugar algum, no final.

Daí adormeci, enquanto pensava, pensava e pensava. E veio esse sonho,com uma sensação de alívio e outras milhares de coisas boas, que eu parecia não me preocupar com nenhuma delas enquanto me atentava somente em descer aquele caminho acidentado e cimentado, cheio de obstáculos que interrompiam a velocidade constante, não muito íngreme, e chegar à entrada do parque sem machucar ninguém ou me ralar toda no chão.

E essa sensação foi tão real que assim que acordei, retirei os patins do local que estão guardados e os segurei. Lembrei que no sonho até o peso deles era o mesmo, e pareceu tão real essa sensação, que eu realmente estive naquele lugar e vivenciei tudo aquilo, que foi como se tivesse sido preenchido esse espaço dentro de mim.

Acordei bem.

Até que comecei a me sentir mal, mas agora por nunca ter tido a coragem de usar aqueles patins.

 

 

 

O meu mais sincero “fodam-se”

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Faz tempo que eu quero escrever sobre isso, mas sempre me deparo com a dificuldade em expressar o que sinto ou pior, de acabar atingindo alguém sem querer.

Mas quer saber, foda-se. Vou desabafar.

Todos os fatos estão basicamente relacionados a um acontecimento, e prometo tentar ser bem objetiva para falar do que eu realmente quero, resumindo os cinco últimos anos. E mesmo depois de tanto tempo que isso ocorreu, é como se um fantasma me assombrasse sempre, a ponto de eu ter vontade de mandar essa mensagem para cada uma das pessoas envolvidas.

Estive num relacionamento que durou seis anos e acabou há quase três. Durante esse tempo todo é comum que o núcleo de amizades de ambos se misturem, quase passando a ser um só. Pela minha experiência chegou a um grau de intimidade que eu acreditava não saber diferenciar quais eram “meus” amigos ou os dele, tamanho carinho que eu sempre tratei essas pessoas.

Quero chamar um grupo dessas pessoas de A. Lembro que em 2007 tinha pouco contato com essas pessoas através de um fórum na internet. Aos poucos fui aproximando – mas bem aos poucos, não tinha facilidade em entrosar e fazer amizades – e por estar começando um namoro, essa pessoa passou por toda essa fase de transição e entrosamento comigo.  Foi mágico porque eram pessoas muito diferentes mas com gostos muito comuns, e pra entender melhor, eram games, RPG, HQ, animes, filmes, ficção científica e os mais variados temas da cultura pop-nerd-sifi-fantástica-gamer-anime.

Então, voltando, o contato era constante. Ao menos uma vez ao mês eu e meu parceiro nos encontrávamos com essa turma, e era muito bom. O grupo crescia, alguns caras começavam a namorar meninas com gostos em comum e no final eu ficava mais próxima das meninas do que deles mesmos, o que também é normal.

Essa volta toda para dizer que tenho muito carinho por todas as pessoas desse grupo, os agregados e seja lá quem eu tiver tido contato por todo esse tempo, mesmo que hoje não seja recíproco.  Que isso fique muito claro, para o caso de alguém pensar que eu deixei de sentir isso.

Com o tempo, os dissabores de um relacionamento começaram a surgir, tornando-o problemático. Claro que isso é mais comum do que se imagina, só que quase todas essas vezes eu não expus para esses amigos qualquer problema. Sempre fui bem reservada e tenho uma amiga confidente que compartilho tudo na minha vida.

Foram anos com o relacionamento desgastado e se arrastando muito, desgastando também a convivência e a amizade de nós enquanto casal, permeada de muitos “baixos” e poucos “altos”. Mas era divertido quando saíamos com os amigos e tudo ficava bem.

Entrou o ano de 2013 e eu não estava bem. Já havia pedido um tempo no namoro por chegar a situações sérias de perseguição, ciúme sufocante e insegurança. Eu pedia o tal do malfadado “tempo” como uma forma de tentar salvar aquele relacionamento, e isso era sempre negado, retrucado com o pedido de uma chance. Questão de opinião. Quando chegou no mencionado ano, isso deixou de fazer diferença. Não nos fazíamos felizes já há muito, e faltava coragem dos dois para admitir, pois um ainda respeitava o outro.

Comecei a ficar angustiada com uma série de coisas, desanimada com minha vida profissional – que não estava indo mal – até que a frustração e a angústia tomaram conta de mim. Eu queria desaparecer, sumir da vida de todo mundo. Me sentia mal por não conseguir expressar o que eu sentia, e me sentia mais mal ainda por só afundar mais e mais naquela situação.

Eu não sabia o que estava acontecendo comigo e não entendia, nem conseguia melhorar isso. Eu simplesmente me sentia mal por ser eu mesma, por estar naquela situação.Como não externava essa angustia fora do portão da minha casa, ninguém nunca soube que eu não estava bem, a não ser essa amiga abençoada confidente. Mas, eu me afastei de quase tudo em razão disso, e se saía de casa para alguma coisa, eu tentava mesmo me distrair.

Um dia decidi: vou procurar uma terapia/ análise. Comecei a ir, mas mantive segredo. Na primeira sessão já tinha percebido que meu relacionamento tinha acabado há muito tempo, e que era um erro insistir nisso, pois nos machucávamos muito no processo. As sessões seguintes reforçavam isso mais e mais, além de outros problemas também.

Depois disso, eu resolvi comemorar meu aniversário. Queria provar que a conclusão a que cheguei na terapia era errada. Chamei várias pessoas, e foram os amigos desse grupo A, meu cunhado, amigos do ex, meu irmão e minha prima com seus amigos. O lugar era um pub pequeno, apertado, e como estava lotado, cada grupo ficou sentado numa mesa diferente, longe um do outro.

Eu estava muito estressada com isso que contei por alto, e enchi a cara (coisa que mal faço nessa vida, sinceramente). Mas enchi mesmo. Não lembro de ter sido grossa com alguém, ou feito algum papelão. Mas eu estava bêbada e lembro do ex me arrastando pelos braços toda hora para sentar na mesa que estava o grupo A, que nem tinha cadeira pra mim. Ele dizia “vem sentar com seus amigos”, e devo ter feito alguma pirraça, que fez com que ele me pegasse pelo braço e me puxasse. Esse é um dos flashes que eu lembro, e poderiam ser parte da visão distorcida de uma bêbada, não fosse por meu irmão e minha prima confirmarem isso. Quando essa memória veio na cabeça na semana seguinte, eu chorei. Chorei porque aquilo não era novidade, mas era a primeira vez que acontecia na frente das pessoas e eu senti vergonha.

Eu não culpo ninguém por esse dia, aguentar bêbado é mesmo um saco quando se está sóbrio. Onde eu fiquei a maior parte do tempo? Na mesa em que estavam meu irmão e minha prima, e por eu ser uma péssima anfitriã, queria conversar com ela sobre o casamento que ocorreria dali a um mês, e com meu irmão, já que saíamos tão pouco e eu estava muito feliz por ver ele ali. O ex também ficou enciumado – e com motivo – de um dos amigos da minha prima, que também conversava comigo e com as pessoas dessa mesa, e que era uma pessoa tão agradável que me incomodou, me culpei por me sentir bem perto dele como se o conhecesse há uma década – não, ele não deu de cima de mim, nem eu dele.

Então sei que dei pouca atenção as outras pessoas que estavam ali por conta do meu convite, e por isso eu me sinto mal. De verdade.

Mas o que quero esclarecer é que esse dia não foi a gota d´água, mas me ajudou a ver muitas coisas que eu já havia entendido na terapia, só não queria aceitar. Então o namoro acabou, eu decidi criar coragem e por um fim. Foi um rompimento brusco para todos ao redor, mas algo há muito esperado para quem estava dentro desse relacionamento.

Eu me afastei de tudo. No facebook, muitos “amigos” me deram block ou então me ignoraram quando souberam do rompimento. Quando acabou, a última coisa que fiz no facebook foi enviar uma mensagem para o melhor amigo dele e dizer “cuida do fulano, ele está muito abalado. Nós terminamos e não voltaremos mais”. Eu decidi encerrar a conta para não ficar tão mexida com aquilo, e fiquei por fora por pouco mais de três meses. Não recebi um telefonema desse pessoal do grupo A, para saber se eu estava viva, bem, ou qualquer merda que fosse (salvo duas exceções). Fiquei muito triste por não se importarem, mas depois aceitei que ninguém depende do que acontece na minha vida para tocar a vida adiante e viver.

Depois de umas semanas me envolvi com outra pessoa – sim, a pessoa agradável que estava lá no meu aniversário – e apesar de ser uma constatação nada incomum – a vida é minha – todos que eu pensava serem pessoas próximas a mim me julgaram, e me julgaram muito. Falo isso porque é infernal uma pessoa que você está sempre em contato começar a agir como se você não existisse, E VOCÊ SEM ENTENDER QUE MAL FEZ PRAQUELA PESSOA TE TRATAR ASSIM. Eu perguntava sempre pra minha irmã: “mas que porra eu fiz pra essa pessoa pra ela me tratar assim? Se alguma coisa aconteceu, foi entre eu e meu ex e só entre nós! Qual o sentido disso?”

Soube depois, por boatos – que me perseguem até hoje – que meu ex procurou desabafar com muitos amigos que tínhamos em comum, principalmente esses do grupo A, e que estavam no meu aniversário.  Eu era a pessoa que, “sem meu ex entender, havia terminado o namoro do nada e pulado nos braços de outro, que quase certamente eu já estava com ele ainda quando namorando com o ex”. Eu me tornei a filha da puta da história, a babaca, e ninguém quer manter contato com um filho da puta. Eu era também a pessoa que “provocava o ex constantemente”, “permitindo que meu namorado atual enviasse cartas para o ex, com fotos, ameaçando e exibindo o prêmio que era eu” – SIM GENTE, PELA MILÉSIMA VEZ ESSA HISTÓRIA NÃO É VERDADE E EU FICO MUITO TRISTE POR TEREM PENSADO ISSO DE MIM E DAS PESSOAS QUE TEM CONTATO COMIGO. Eu achei que estivesse livre de toda a coisa doentia, mas não, ela ainda me perseguia.

Essa historia é tão surreal que eu me arrependo muito de não ter levado pra Polícia, apesar de ter feito Boletim de Ocorrência. O ex, ou alguém próximo a ele, enviou pelos correios para o ex, um envelope contendo várias fotos minhas com o ex, e o remetente era, ora pois, o atual namorado, com um endereço aleatório. Curiosamente essa correspondência foi entregue na casa do ex, no aniversário dele, fev/14, quando era comemorado com uma festa junto com todos os amigos do grupo A. O que eu poderia dizer em minha defesa para todos aqueles que estavam ali? Nada ué, gente filha da puta tem é que ficar calada mesmo.

Eu já vi várias dessas pessoas na rua, e fui ignorada. Já tentei cumprimentar na rua, ainda que de longe, e fui ignorada. Uma vez fiz questão de chamar a pessoa pelo nome, depois dela me ignorar várias vezes, e ela veio toda sem graça, me deu um oi e sumiu. Foi na rua em que trabalho e depois disso nunca mais vi a pessoa por ali. Coincidência ou não, eis os fatos.

O ruim é que algo tão medíocre fez com que esse grupo de amigos também hostilizasse meu namorado atual, suposto remetente da correspondência enviada para alguém que ele mal sabe que existia, quem dizer onde morava para remeter a carta. Essa foi a parte que mais doeu e foi ali que comecei a desistir de tentar nutrir amizade com a maioria daquelas pessoas. Apenas DUAS PESSOAS, de quase vinte, veio até mim me mostrar aquilo e perguntar se era verdade. O resto estava contaminado, ou simplesmente não se importou.

Um mês depois o ex começou a namorar – algo que eu sempre pedia nas minhas orações – e ele finalmente me deixou em paz. Acabou o tormento, e dali pra frente eu também já sabia que ninguém mais me chamaria para nada (ninguém desse grupo), pois agora havia a desculpa do “nossa, mas vai colocar ela e a namorada atual do cara juntas, isso não vai dar certo”. Gente, eu devo ter sido uma das pessoas que mais fiquei aliviada (por mim) e feliz por ele. Simplesmente, parem.

Tudo isso que aconteceu me causou uma nova angustia que graças a terapia, não aumentou. Eu ficava abismada que nenhuma dessas pessoas – duas, somente, se importaram – me ligassem ou entrassem em contato. Eu não sabia o que era falado de mim mas sentia a hostilidade e com isso fui me afastando desse grupo.

E eu juro que tentei me reaproximar, mas queria evitar onde o ex estivesse para não ter nenhum desconforto. Daí era impossível pois ele estava em todo lugar com a turma. No Natal de 2014 eu quis aparecer, aproveitar um encontro anual que todos fazem e matar saudade. Propositalmente esperei até que o tradicional amigo oculto acabasse para chegar lá, pois se eu fosse hostilizada ali naquele ambiente, não ia aguentar segurar a compostura por muito tempo. O ex estava lá e eu já esperava por isso: a essa altura eu e ele já estávamos com outros companheiros, mas no dia estávamos sozinhos.

Em uma contagem quase de meio a meio, parte me tratou bem mas com muita frieza e hostilidade – me chamando pelo primeiro nome, que nem era comum de se fazer naquele círculo – e outra parte conversou comigo como se nada tivesse afetado aquele vínculo. E isso foi lindo. Ignorei as coisas ruins e saí de lá com o peito quente, pois quem eu gostava havia me recebido muito bem e eu não precisava me sentir mal com aquilo. Mas essa turma ficou muito mais próxima do meu ex com o término do namoro, então naturalmente houve um afastamento, meu e do grupo. A ironia era que, durante o namoro que acabou, meu ex desabafava descontentamento com muitos desse grupo, reclamava de vários deles, e era eu que aconselhava a contornar tudo e seguir em frente, pois eram amigos.

Tem outros desse grupo também que mantenho contato, ainda que pouco, e isso também é lindo. Mesmo que não tenham me procurado quando tudo aí em cima aconteceu – talvez por nem terem sido afetados por isso – continuam me tratando como se nada tivesse mudado. E é porque não mudou mesmo! Meu desabafo é para os outros, e que isso fique claro.

Até hoje escuto gente dizer: “nossa mas ninguém entende como eles terminaram, estava tudo bem e o ex sempre falava isso”. Eu sinceramente já me expliquei pra quem eu sentia obrigação de me explicar, e por mais que a vida tenha me levado a caminhos diferentes dessas pessoas que tenho como importantes pra mim,  eu não tenho mais saco para falar desse assunto, daí que estou usando esse espaço para contar a minha versão e desabafar.

Daí me pergunto: qual o valor de uma amizade?

A amizade é uma conveniência? Só é importante quando há alguma vantagem? Se é preciso passar por algo desagradável, como ter que ouvir um desabafo, é melhor não fazer? O que te faz constatar ser amigo de alguém? A proximidade, o contato, a afinidade? Quanto custa ligar ou mandar uma mensagem para um amigo para saber se ele está bem? E quanto custa responder a mensagem desse amigo, que está querendo demonstrar que se importa?

Sou muito grata as pessoas que estão próximas a mim, dando total apoio. Sem isso, seria difícil ser forte para encarar inesperadas graves situações, que só desejamos que os amigos estejam por perto para nos apoiar. Cheguei  ficar tão afetada em alguns períodos desse ano que qualquer pessoa próxima que me perguntasse “está tudo bem?” eu já contava quase que a minha vida inteira.

Eu também já aceitei que existem “amigos” que só vão te procurar quando precisarem muito de algo e você for praticamente a última opção a recorrer. Sabe aqueles que, há um tempão sem ter contato, nem dizem “oi, tudo bem?” e já vem com “me empresta isso?”, “você me ajuda nisso?”. É gente, isso também machuca. Melhor, já machucou. Mas sem drama, a terapia me ensinou a dizer não.

Tem aqueles que ainda estão envenenados por inverdades, coisas que eu já desmenti várias vezes, e que eu já não tenho mais paciência para me explicar. Sou ignorada, e daí reconheço que meu lugar é longe dali.  A terapia me ajudou a lidar com isso.

Tem aqueles que nunca querem saber como você está, e quando você liga para saber de algo ou sei lá porque, ainda é obrigado a escutar “nossa, mas você sumiu”. Oh porra, mas sou eu que estou te ligando, e não o contrário!

Por fim, eu sei que para muitas pessoas minha amizade não vale nada. A terapia me ajudou a aceitar isso, a aceitar que não preciso agradar a todas as pessoas, e entendi isso sem drama nenhum. E eu aceitei, deixei muitos irem embora para nunca mais tentar chamá-los de volta. E também aceitei que EU não preciso de muitas das “amizades” que eu julgava ser importantes. Existem pessoas que simplesmente não valem a pena para nós. 

Com tudo isso aprendi, em resumo, duas coisas.

A quem eu ainda mantenho contato, ainda que bem pouco, todo o meu carinho.

Aos demais, ofereço o meu mais sincero “fodam-se”.

Com amor,

Lai.

Nascente e poente

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Salar de Uyuni, Bolívia

Eu gosto de pensar que costumamos ser preparados para fortes momentos em nossas vidas, para então passarmos por uma longa tormenta. É como o agricultor que semeia e cuida daquelas plantas para que as raízes se mantenham firmes durante a tempestade.

Pois eu me peguei, por várias vezes, refletindo o quanto esse ano tem sido espetacular para mim.

Fruto do último relacionamento em que em me sentia tolhida dos meus próprios desejos e vontades em prol de me tornar, para o outro, a pessoa ideal àqueles olhos, senti que precisava viver e recuperar todo o tempo que perdi durante a minha vida tentando ser uma pessoa que não sou, apenas para agradar os outros e à ideia que criaram de mim.

E não foi fácil descobrir essa sede.

Foram longas sessões de terapia para que eu conseguisse entender que o “verdadeiro eu” esteve num cantinho, bem escondido, como uma criança no escuro com o rosto entre os joelhos dobrados, acuada, e que essa  criança precisava urgentemente sair daquela caverna e começar a crescer.

E foi aí que percebi que alguns dos últimos anos passaram voando, sem muitas lembranças sólidas e sentimentos fortes que impulsionassem verdadeiramente a vontade de viver.

Ah, o tempo … grande inimigo nessas horas insanas.

As coisas que abrimos mão, as nossas vontades e desejos que guardamos numa caixinha bem insignificante e escondemos, para agradarmos àqueles à nossa volta. O problema é deixar que essa caixinha fique tão bem guardada a ponto de ser esquecida, o que eu quase fiz …

Então, feitos esses contornos, esse último ano foi um ano de descobertas, na busca de me achar no meio de tantos “eus” que criei tentando não ser eu mesma.

É como – e usando mais uma metáfora simplória aqui – se todas as máscaras que criássemos não nos servissem mais, e você quisesse andar na rua completamente nua, de preconceitos, de conceitos e de ideais, doa a quem doer.

Acredito que por isso tenha sido um ano que eu tenha me orgulhado tanto da forma que eu me desenvolvi, tem me preenchido.

Foram sentimentos verdadeiros, de amor intenso e ao mesmo tempo sereno, de amizade, companheirismo, de ódio, egoísmo, tristeza, frustração, envelhecimento, todos bem intensos. E no meio dessa constância de coisas, felicidade.

Esse foi, sucintamente, o desabrochar da minha mente e do meu coração.

Mas as coisas que aconteceram ao meu redor, as experiências vividas, também contribuíram para isso.

Tive a oportunidade de conhecer uma ilha maravilhosa, com poucos lugares tocados pelo homem, uma natureza “selvagem”. Ainda em contato com uma natureza intocada, conheci o paraíso no interior de Goiás, perfeito lugar para se passar os últimos dias de vida em paz consigo mesmo. Conheci cidades grandes e cidades pequenas, saí da minha cidade para ver shows de bandas que gosto muito, desapeguei um pouco do meu chão e me permiti, ainda que muito pouco, vivenciar realmente todas essas coisas.

E não, não dei a volta ao mundo. Pra falar a verdade, eu nem saí do país.

E quando o tempo pode ser nosso aliado?

A família é algo que só compreendemos melhor com o passar dos anos, o amadurecimento. Me libertei daquela perspectiva infantil, de apreender os pais como seres perfeitos e absolutos, para entender que eles são humanos como nós e também erram. Estou nesse caminho, tentando enxergar as coisas com uma “lente” de cor e grau “adulta”. É um grande passo, um grande aprendizado e um meio que nos aproxima daquelas nossas referências.

Os irmãos, sempre tão companheiros. E a família em sentido amplo, todos com seus acertos e tropeços, tentando sobreviver à guise de suas imperfeições, o que acaba por ter certa perfeição também, dentro da nossa essência humana.

Tive um bom reconhecimento no trabalho, apesar de nunca ser aquilo que pensamos merecer, aquém das expectativas. Mas serviu, talvez por vaidade, para me deixar feliz.

E amigos?

Que dizer daqueles que nos viram as costas, nos julgam por decisões que tomamos e que nos fazem sentir como se não mais fôssemos úteis na vida deles, como algo descartável? O que resta a dizer é que nunca foram, em verdade, amigos, no fim das contas. Mas mesmo assim não lamento o tempo que perdi tentando cultivar essas amizades, eu apenas colho esse aprendizado e tento dar passos para frente.

Que dizer, por outro lado, de tantos outros que nos abrem um sorriso e te fazem sentir bem consigo mesma, mesmo após muito tempo sem vê-los? Daqueles que nos recebem com o mesmo carinho de sempre, com os mesmos sorrisos serenos e as mesmas palavras calorosas, sinceras, com um abraço naturalmente aberto pronto para encontrar o calor do peito à frente.

Daqueles que respeitam meu jeito bem calado, que só se sente a vontade para ser muito comunicativa depois de muita intimidade – e haja paciência, eu sei! E aqueles que te cativam de um jeito, que a cada instante do lado deles você só deseja que este vínculo possa durar, no mínimo, para sempre. Todos estes me fazem sentir um calor no peito, e a isso sou muito grata.

E falando desses dois, que dizer dos amigos que conquistei no trabalho e do trabalho pelo qual pude conhecer grandes amigos? Daqueles que surgem singelamente querendo uma ajuda e no fim das contas, já me faz sentir tanta afinidade como se conhecesse a pessoa pela vida inteira.

E aquelas pessoas que sabem que você não está bem e, sem serem invasivas, te tocam de uma forma que você consegue esquecer, ainda que por pouco tempo, os seus problemas.

Foi um ano de descobertas e de autoconhecimento, de cuidados com a saúde.

Uma irônica intolerância à lactose me fez refletir sobre a necessidade de ter maiores cuidados em relação à saúde, o que sempre fui relapsa. Outros probleminhas, coisas da idade, chegaram para nos lembrar que já não temos mais quinze anos e que para nos sentirmos bem conosco, precisamos ficar mais alerta.

Encarei algumas dificuldades para emagrecer, já que não sou daquelas poucas pessoas que estão plenamente satisfeitas com o corpo que tem. O que antes era num piscar de olhos, agora me toma pelo menos seis meses de dedicação, levando tudo muito a sério.

Comecei a aceitar que nem sempre a culpa é de alguém. Muitas vezes as coisas acontecem, ou por nossa culpa, ou simplesmente porque acontecem e o universo, nesse dinamismo e imprevisibilidade, deixou que as coisas acontecessem da forma que aconteceram.

Foi também um ano de rebeldia.

Tomei coragem e coloquei um piercing! Coisa que até hoje, quando me lembro, causa-me um sorriso sereno e sincero, uma rebeldia pouco velada para mostrar que eu ainda sou dona de mim e que consigo encarar algumas mudanças (ainda que sejam poucas, de toda forma).

Fora tantas outras coisas boas que estão aqui, na memória, e tantos planos para o próximo ano, que chego a desacreditar que tudo esteja, de fato acontecendo.

E a felicidade …

Como escreveu A. Supertramp, nunca é verdadeira se ela não for compartilhada, e cada um desses momentos aproveitei ao lado de pessoas igualmente especiais, compartilhando dores e muitos, mas muitos sorrisos.

Claro que tiveram vários momentos ruins, de frustração, tristeza, impotência, fraqueza, ódio e vontade de desaparecer. Afinal, não é possível, a menos na minha perspectiva, manter-se sereno durante todos os momentos.

Mas o saldo foi positivo, eu senti meu amadurecimento a cada instante e sou muito grata a cada pessoa e situação que contribuíram para isso.

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Contudo, o ano ainda não acabou.

Ah, aqui é uma metáfora também, daquelas que dizem que tudo acaba somente quando termina.

É nos olhos de angústia de uma pessoa amada que você começa a se preparar para algo intensamente doloroso que está por vir.

Seu corpo estremece, seu rosto queima e não obedece aos seus comandos, expondo lágrimas que não querem ficar guardadas para um momento de solidão.

Por isso eu acredito que esse foi um ano inteiro recarregando as forças, os ânimos e a motivação, para aprender que várias coisas ainda valem a pena.

Então, hora de enfrentar esse monstro, que não é meu mas me angustia como se fosse, a mim e as pessoas ao nosso redor.

Estarei a seu lado sempre, M.

Defenestração, por Luís Fernando Veríssimo

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“Certas palavras tem o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A falácia Amazônica . A misteriosa falácia Negra.

 

Hermeneutas deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
-Os hermeneutas estão chegando!
-Lh, agora é que ninguém vai entender mais nada…
Os hemeneutas ocupariam a cidade e paralizariam todas as atividades produtivas com seus enígmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisa recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
-Alô…
– O que é que você quer dizer com isso?…

Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
– Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.

Plúmbeo devia ser o barulho que o corpo faz ao cair na água.

Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração.
A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca me lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um som lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
-Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas…Ah, algumas defenestravam.
Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria assim defenestradores profissionais.
Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? “Nestes termos, pede defenestração…” Era uma palavra cheia de implicações. Devo tê-la usado uma ou outra vez, como em:
-Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada era a palavra exata.

 

Um dia finalmente procurei no dicionário. E aí está o Aurelião que não me deixa mentir. “Defenestração” vem do francês defenestration. Substantivo feminino, ato de atirar alguém ou algo pela janela.
Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal,não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração?
Talvez fosse um hábito francês que caiu em desuso. Como rapé. Um vício como o tabagismo ou as drogas, suprimido a tempo.
-Les defenestrations. Devem ser proibidas.
-Sim, monsieur le ministre.
-São um escândalo nacional. Ainda mais agora, com os novos prédios.
-Sim, monsieur le ministre.
-Com prédios de três, quatro andares, ainda era admissível. Até divertido. Mas daí para cima vira crime. Todas as janelas do quarto andar para cima devem ter um cartaz: interdit de defenestrer. Os transgressores serão multados.. Os reincidentes serão presos.

Na bastilha, o Marquês de Sade deve ter convivido com notórios defenestreurs. E a compulsão, mesmo suprimida, talvez persista no homem, como persiste na sua linguagem. O mundo pode estar cheio de defenestradores latentes.

(Luís Fernando Veríssimo. O Analista de Bagé. 6ª ed. Porto Alegre.L&PM ed. 1981. p. 29-31)

“Dispenso esta rosa”, por Marjorie Rodrigues

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Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.

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Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

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Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade – da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.

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A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece comfrequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.

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Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.

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Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

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Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso – onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

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Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam aviolência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.

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Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.

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Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

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E a imagem não é  a mesma a qual refere-se a autora (ao menos eu acho que não).